O ano definitivamente não termina como se iniciou em Aquino. Do alto do Castelo, constatamos as mudanças na paisagem. Novas famílias se formaram, construíram outros lares e se mudaram. Pessoas que costumávamos avistar nas ruas deixaram nosso convívio. Peregrinações reuniram muitas almas sequiosas ao redor de um Pastor o qual, por sua vez, sucedeu a outro. Amigos se foram, outros vieram. O tempo trouxe diversas alegrias, mas incluiu sofrimentos no pacote. E assim o horizonte do Condado já não é mais o mesmo.
O Sol, porém, permanece impávido, a erguer-se nas colinas douradas. Brilhante, tira da escuridão a silhueta das coisas criadas e permite às almas tomar nota de sua forma, dirigir pelo caminho. Incansável, a fornecer luz e calor intensos, objetos de murmuração para alguns e de fascínio para outros. Confiável, está sempre a pino ao meio-dia. Moderado, nunca se expõe mais que o ocaso.
A fé alimenta o dia. A esperança faz suportar a noite. A caridade traz de volta o Sol de cada dia, que se torna pão, fortaleza e claridade nas trilhas soturnas que percorrem nossas terras. Então aguentamos, porque somos homens amados que amam o Amor. E aprendemos que o tempo que tudo consome nem tudo é capaz de consumar, porque o ocaso do homem é o Sol do meio-dia.
domingo, 29 de dezembro de 2013
Translação
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Litígios Noturnos
Já não há luz em Aquino, exceto aquela que clama do firmamento pelo olhar dos que não lhe voltam o rosto. Soturnas, flechas cruzam os muros atingindo bons homens, que deixaram a vigília, confiando a segurança dos seus às sólidas muralhas do castelo. Almas cambaleantes tentam despertar em meio às investidas da escuridão. Não há fogo, mas a dor queima. Despertas, almas livres procuram resistir carregando seus feixes e arcos. O castelo reage, mas quem são os alvos na escuridão? Desorganizados, perdidos em meio ao caos; as poucas tochas assombradas pelo desespero. Então, uma das crianças tropeça e derruba um candeeiro numa parga. E a noite é interrompida pelo clarão do incêndio. Os civis buscam água; no céu, pode-se, enfim, ver as setas cruzando as alturas. Então, o bom Capitão ordena a seus arqueiros que tornem flamejantes suas armas. E a chuva de luzes tal como estrelas cadentes permite ver no horizonte o inimigo. Os soldados olham para o céu anda mais pontilhado na companhia das chamas provocadas por suas mãos. O que era caos se tornou ordem; o que vagueava perdido agora tinha direção. O temor deu lugar à bravura e a desesperadora falta de coragem cedeu lugar à esperança. Fleumática, a fortaleza se volta a seus violadores e expulsa plenamente os invasores na alvorada.
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Soturno
Trazem-me a carta de um sacerdote jesuíta. Abrindo a correspondência, não vejo correspondência entre aquilo que sai da boca de Deus e atinge o mundo sem que produza antes de voltar e o que ilustra a pena de supostos homens de fé. A carta é do correio de Paulus, um reino bem distante de Aquino. Vem endereçada aos filhos desta terra, trazendo uma mensagem de sabedoria anêmica, visto que lhe falta fortaleza divina. Desejam que nós a utilizemos como suplemento catequético e, apesar de longe, propõem-se a entregar as mensagens todas as semanas em nossas portas. O sermão dominical é sobre o perdão, referência ao Evangelho em que um Senhor pede contas a um empregado acerca de suas dívidas e este suplica por piedade, usufrui de sua misericórdia, mas não deixa que esta transcenda além de si, impedindo seu reflexo a um outro colega endividado. A leitura, de Sirácida, trata do rancor e da raiva e da necessidade de largá-los pelo caminho antes de implorar a cura a Deus. Entretanto, em sua carta, um dos filhos de Santo Inácio faz a proposta de uma outra via sem Deus. Cansado, no silêncio da madrugada do condado, passo a refletir, tentando estabelecer elos entre a boa-nova de Jesus e a do jesuíta. Observo que o radical enaltece semelhança. Justo, pois, considerar semelhanças a procurar. Contudo, quanto mais perto minha vista cansada se aproxima, para mais longe o intelecto saturado impele o meu pensar. Para este jesuíta, cabe-nos trilhar um caminho, que não apela à ciência, mas a mera sabedoria e experiência humanas, feitas à margem das tradições, da religião e da fé; um caminho preparado ao longo do século por uma pretensa civilização do Oeste, no qual não faz falta alguma transcendência além da história. Não entendo, pois, qual foi o erro daquele empregado que não deixou a compaixão de seu patrão transcender sua alma e mandou jogar o colega na prisão. Se não faz falta alguma, por que o Senhor ficou indignado ao saber disso; por que o qualificou como perverso e mandou torturá-lo? Não entendo. Continuo a percorrer a trilha do caminho ateu jesuíta, por mais que me pareça paradoxal o simples uso do adjetivo ateu ao lado de jesuíta - deve ser daí que a localidade de nascimento do fundador da Companhia de Jesus passou a ter a semântica de hipocrisia. Sugere-se uma vida em que não há lugar para esperança. A esperança traria infelicidade para nós; devemos ser felizes em um mundo sem futuro, sem esperança. Realizados no presente de uma terra de desespero que seria produto da honestidade humana que nos traria como prêmio a felicidade. Decido enviar um mensageiro a Paulus e aos reinos vizinhos. Ele cruza o gigantesco oceano que separa Aquino daquelas longínquas terras. Ultrapassa a fossa abissal de Damasco onde outrora os olhos de grandes perseguidores de cristãos foram abertos de sua escuridão. Chega aos portões de Paulus, mas retorna sem ser ouvido. O mensageiro pergunta as razões das portas fechadas, mas ninguém se apresenta para lhe esclarecer. Então ele retorna para o condado, entristecido. Havia chegado pronto para dar as razões de nossa esperança, mas parece que essa virtude já tinha sido desalojada daquelas terras, relegada à mendicância nas estradas que levam a um reino cristão sem Deus e que desaprendeu coisas como não guardar ódio ou rancor, não levar em conta a falta alheia, não se vingar. Não resta dúvida, todavia, que suas ações parecem coerentes a uma via na qual não faz falta alguma transcendência além do que se vê hoje. Pra quem já usa uma sabedoria que prescinde da fé e despeja a esperança do credo de Niceia na vida do mundo que há de vir, matar a caridade é apenas um passo adicional.
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
Soneto do Ano Novo
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Exilados...
domingo, 12 de setembro de 2010
Analfabetismo
Analfabetismo
Machado de Assis - 15 de Agosto de 1876
Gosto dos algarismos, porque não são de meias medidas nem de metáforas. Eles dizem as coisas pelo seu nome, às vezes um nome feio, mas não havendo outro, não o escolhem. São sinceros, francos, ingênuos. As letras fizeram-se para frases: o algarismo não tem frases, nem retórica.
Assim, por exemplo, um homem, o leitor ou eu, querendo falar do nosso país dirá:
- Quando uma constituição livre pôs nas mãos de um povo o seu destino, força é que este povo caminhe para o futuro com as bandeiras do progresso desfraldadas. A soberania nacional reside nas Câmaras; as Câmaras são a representação nacional. A opinião pública deste país é o magistrado último, o supremo tribunal dos homens e das coisas. Peço à nação que decida entre mim e o Sr. Fidélis Teles de Meireles Queles; ela possui nas mãos o direito a todos superior a todos os direitos.
A isto responderá o algarismo com a maior simplicidade:
- A nação não sabe ler. Há 30% dos indivíduos residentes neste país que podem ler; desses uns 9% não lêem letra de mão. 70% jazem em profunda ignorância. Não saber ler é ignorar o Sr. Meireles Queles: é não saber o que ele vale, o que ele pensa, o que ele quer; nem se realmente pode querer ou pensar. 70% dos cidadãos votam do mesmo modo que respiram: sem saber por que nem o quê. Votam como vão à festa da Penha, - por divertimento. A constituição é para eles uma coisa inteiramente desconhecida. Estão prontos para tudo: uma revolução ou um golpe de Estado.
Replico eu:
- Mas, Sr. Algarismo, creio que as instituições ...
- As instituições existem, mas por e para 30% dos cidadãos. Proponho uma reforma no estilo político. Não se deve dizer: “consultar a nação, representantes da nação, os poderes da nação”; mas – “consultar os 30%, representantes dos 30%, poderes dos 30%”. A opinião pública é uma metáfora sem base: há só a opinião dos 30%. Um deputado que disser na Câmara: “Sr. Presidente, falo deste modo porque os 30% nos ouvem...” dirá uma coisa extremamente sensata.
E eu não sei que se possa dizer ao algarismo, se ele falar desse modo, porque nós não temos base segura para os nossos discursos, e ele tem o recenseamento.
Fonte: http://www.carloszarur.com.br/pagina.php/148
quinta-feira, 24 de junho de 2010
Do Princípio ao Fim
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Paulo Freire e Catolicismo
Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
O MÉTODO PAULO FREIRE EM DEBATE
Vejamos agora de mais perto em que consistem
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Tempo Incomum
Os dias que antecedem a vitória de Cristo sobre a morte são chamados de Tríduo Pascal. A transição entre o tempo comum e o período de preparação para a Páscoa da Ressurreição, é permeada, outrossim, por três dias bem singulares. A "sabedoria" popular chama esse período pela alcunha de carnaval.
Por Tradição, dizemos que Nosso Senhor desceu aos infernos, por ocasião se sua Paixão, a fim de abrir as portas dos céus às almas dos justos que lá esperavam a justificação. Talvez, analogamente, pudéssemos fazer memória deste fato nessa época que antecede a quaresma; quem sabe, chamarmos tríduo infernal a esse tempo incomum que termina uma fração do tempo comum?
É difícil encontrar similares para o grau de devassidão moral que se dissemina um pouco por toda parte, a partir da sexagésima, progressivamente tanto quanto mais nos aproximamos da quarta-feira de cinzas. Aliás, nada mais coerente do que, depois de descer aos infernos, tomar nota dos restos deixados por suas chamas; ou do pó onde todos acabamos.
É, pensado dessa maneira, talvez o carnaval tenha realmente sua utilidade prática.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Oxidação do Raciocínio
A potência que nos permite a reclamação escorre da mesma fonte que nos habilita a tomar consciência do abismo que separa a matéria da enigmática geratriz universal. Nossa compreensão exata das coisas alcança seu ápice quando nos apercebemos quão exata é a inexatidão de respostas oferecidas ao nos confrontarmos com tudo o que existe no mundo. Damos-nos conta da insuficiência de nossas forças e, nesse estágio, passamos à escolha de novas estradas. É aqui, no início do entendimento sobre o entendimento, que o homem deve começar a encontrar o seu fim; as motivações de sua existência. Infelizmente, também é este o trevo que dá acesso à DDRL – à via que leva à degeneração do raciocínio porque este é voltado contra si mesmo e passa a se autodestruir.
Pífio homem! Ciente de quão pequeno se encontra em comparação com a vastidão católica tomará, geralmente, o caminho das nuvens, considerando que, existindo muito mais nos céus que em terra, razoável seja supor que haja mais a almejar nas alturas. De outra sorte, incauto o intelecto daquele que, percebendo-se incapaz de resolver toda equação, decide solucionar o problema por exclusão; como alguns poderiam fazer para representar didaticamente todo o universo dos números naturais: Ninguém tentaria fazer caber todos eles em uma folha de papel. Toda representação é realizada com base amostral. Mas mesmo nesse caso uma parte do raciocínio se transporta do campo concreto ao abstrato e se dissolve em uma espécie de vácuo espacial para definir a infinitude do conjunto; em outras palavras, o intelecto transcende o papel para manter intacta a essência do universo trabalhado. Não ocorre o mesmo com quem, no cruzamento, toma o caminho errado.
Quem fecha a questão sem resolvê-la, abre a ponte aos carros sem terminá-la. O resultado é previsível: os carros caem no rio.
Em algum ponto da história, o ser humano achou que deveria responder tudo e, como resultado, creu que tudo aquilo ao qual não pudesse oferecer uma satisfatória explicação concreta seria certamente objeto de uma explicação concreta sem notar o quanto paradoxal esta afirmação se transforma ao considerarmos que a asserção das explicações concretas para tudo carece de uma mesma explicação concreta para si própria. De fato, não há consequência lógica aí, porque assim como a existência do homem não dependeu de sua vontade (e nem da de seus pais, pois jamais foram capazes de prever sua concepção senão aceitá-la como possibilidade real – ninguém constrói uma vida senão contando com o obséquio fortuito, como a semente que se planta e se espera que nasça, sem nunca descartar a possibilidade de que ela pode não “pegar” – e isso vale mesmo para fertilizações efetuadas de maneira artificial), a existência de uma explicação concreta também escapa ao seu domínio. Aliás, não é sem razão que domínio tem raiz etimológica latina
Desorientado por sua premissa equivocada; orientado pelos preceitos de sua embriaguez intelectual, o ser humano ao se deparar com a própria ignorância sob a alcunha de inteligência, ao invés de se voltar para aquilo que complementa a imensa escuridão de sua razão, isto é, olhar para luz, exclui de sua concepção de mundo tudo o que não se encaixa. Ao invés de continuar a montar todo o quebra-cabeça, mesmo considerando a possibilidade de que nunca chegará ao fim, prefere decidir com as peças que têm em mãos gerar distinto quebra-cabeça e impor nele o seu próprio final. O resultado é desastroso. Como seria se o matemático, impedido de alcançar a outra margem dos naturais, resolvesse descartar os que estavam longe. Ao contrário do ponteiro a cumprir seu papel em sua jornada circular pelas mesmas paisagens, o homem se rebela contra seu papel em sua jornada infinita e linear por paisagens portentosas nunca antes visitadas. O ponteiro anda em círculos porque deve. O ser humano anda em círculos por livre vontade.
Minando a certeza razoável da transcendência pela incerteza não razoável da potencial onisciência humana, o homem funde o próprio intelecto, atingindo-lhe diretamente em ponto essencial, de tal maneira que ele já não consegue mais se desenvolver e, estagnado, enferruja até que não se sustentado mais sozinho se quebra.