Fora dos portões, chegam notícias de algo que se dissemina cada vez mais rapidamente, a patologia que corrompe as leis do pensamento, uma doença autoimune que ataca a semelhança entre o Criador e a criatura, uma espécie de lúpus da razão. Conhecida pelos médicos do castelo há pelo menos duas décadas, é degenerativa e seu progresso, ao longo do tempo, costuma causar aflição ao observador são, especial e proporcionalmente aos laços de afeto com o observado. O processo de definhamento é triste e a incapacidade de executar fórmulas bem formadas geralmente implica graus de perplexidade nos homens que conservam a saúde, porque estes últimos, mantendo os princípios que buscam a semântica na linguagem formal da razão, não raramente se afligem com os odores e aspectos desagradáveis que exalam das secreções provocadas pelas feridas no tecido da criação. Deus fez um universo ordenado e violações à ordem estabelecida geralmente produzem cheiro de queimado, ruídos estridentes, imagens de pouca beleza, sensações providencialmente desagradáveis de modo a afastar da causa dos danos aqueles que não desejam se ferir.
Os erros sempre fizeram parte do aprendizado
humano, mas o aprendizado sempre pressupôs a incolumidade das leis do
pensamento. Por isso, no típico trabalho da docência, há de se identificar
distinções entre o aluno que escreve “3² = 6” em uma prova e outro que escreve “–3 >
0” em tom assertivo. No primeiro caso, há um erro que demanda correção, a
anulação da questão, já que a resposta está objetivamente equivocada, mas resta
intacta a incolumidade da ordem natural, pois a semelhança entre Criador e
criatura continua a ser vista no espelho. O segundo caso exige mais atenção,
porque, não obstante produzir efeitos semelhantes, exigindo a nulidade da
questão e a correção, esconde em si uma sublevação da ordem racional. Nem mesmo
a título de erro alguém deveria ser capaz de afirmar que um número negativo é
positivo. É o germe de algo que precisa ser cortado pela raiz. Na palavras de
Chesterton: “Há um pensamento que para o pensamento e esse é o único pensamento
que precisa ser parado”. A doença degenerativa do raciocínio lógico ainda não
está estabelecida nessa fase. Mas sua semente, se não for tratada, pode
produzir uma erva-daninha. Por essa razão, os mestres do castelo sempre
demarcaram esse tipo de equívoco, enfatizando o absurdo na esperança de que o
discente, ainda conservando um sistema imunológico capaz de lhe prover a saúde,
seja capaz de restituir à criação o que de algum modo lhe fora subtraído. O
risco de omissão à essa altura, pode levar a um relativismo gradativo que tende
ao caos e a princípios de incerteza que corrompem a razão e podem alcançar um
ponto sem retorno conhecido.
Em determinado estágio, a
degeneração do raciocínio lógico acaba por adquirir uma característica autoimune.
É uma fase em que se puderam observar alguns comportamentos típicos como uma excessiva
irritabilidade dos indivíduos, geralmente acompanhada de uma sensação de
insuportável convivência, muitas vezes disfarçada em paradoxos típicos de um
universo que perdeu a coesão das leis do pensamento, como a coragem covarde,
caracterizada por rejeitar teses antagônicas com a violação do princípio da
identidade, confundindo as almas com aquilo que defendem, de tal maneira a
nutrir ojeriza por elas, disfarçando a ira desordenada por uma repulsa à
opinião, descrita frequentemente como uma impossibilidade lógica na forma de
adjetivos desqualificadores da tese ou da pessoa. A coragem advém da aparente defesa
contumaz da violação de leis do pensamento sem que se esteja disposto
honestamente ao diálogo, muitas vezes censurando vozes dissonantes com escusas
ad hominem a ocultar a soberba que, incapaz de se satisfazer com a ordem intacta
do restante do universo, deseja recriá-lo à sua própria imagem e semelhança,
sem as âncoras naturais da ordem criada, pelo que é paradoxalmente covarde. Uma
espécie de ficção acientífica.
Procedimentos sistemáticos que possam curar a enfermidade em seus estágios mais avançados de degeneração ainda não são totalmente conhecidos. Sabe-se que o convívio entre indivíduos sãos em detrimento dos doentes pode controlar alguns sintomas e, talvez, suprimi-los, de forma a produzir uma aparência de normalidade extrínseca, uma latência. Nesse sentido, a doença se compara ao vício, para os quais fazer cessar as ocasiões, resulta em menor exposição ao risco. Resta-nos pedir sempre a providencial intervenção do Criador a fim de restituir à criatura a visão de sua própria imagem, bem como os princípios que permitem inferir sua semelhança. E claro, cuidar para manter a coesão do universo que Ele criou e dispôs em ordem, de forma a não sermos nós os próximos pacientes.