sexta-feira, 23 de outubro de 2026

A perplexidade diante da DDRL

 Fora dos portões, chegam notícias de algo que se dissemina cada vez mais rapidamente, a patologia que corrompe as leis do pensamento, uma doença autoimune que ataca a semelhança entre o Criador e a criatura, uma espécie de lúpus da razão. Conhecida pelos médicos do castelo há pelo menos duas décadas, é degenerativa e seu progresso, ao longo do tempo, costuma causar aflição ao observador são, especial e proporcionalmente aos laços de afeto com o observado. O processo de definhamento é triste e a incapacidade de executar fórmulas bem formadas geralmente implica graus de perplexidade nos homens que conservam a saúde, porque estes últimos, mantendo os princípios que buscam a semântica na linguagem formal da razão, não raramente se afligem com os odores e aspectos desagradáveis que exalam das secreções provocadas pelas feridas no tecido da criação. Deus fez um universo ordenado e violações à ordem estabelecida geralmente produzem cheiro de queimado, ruídos estridentes, imagens de pouca beleza, sensações providencialmente desagradáveis de modo a afastar da causa dos danos aqueles que não desejam se ferir.

Os erros sempre fizeram parte do aprendizado humano, mas o aprendizado sempre pressupôs a incolumidade das leis do pensamento. Por isso, no típico trabalho da docência, há de se identificar distinções entre o aluno que escreve “3² = 6” em uma prova e outro que escreve  “–3  > 0” em tom assertivo. No primeiro caso, há um erro que demanda correção, a anulação da questão, já que a resposta está objetivamente equivocada, mas resta intacta a incolumidade da ordem natural, pois a semelhança entre Criador e criatura continua a ser vista no espelho. O segundo caso exige mais atenção, porque, não obstante produzir efeitos semelhantes, exigindo a nulidade da questão e a correção, esconde em si uma sublevação da ordem racional. Nem mesmo a título de erro alguém deveria ser capaz de afirmar que um número negativo é positivo. É o germe de algo que precisa ser cortado pela raiz. Na palavras de Chesterton: “Há um pensamento que para o pensamento e esse é o único pensamento que precisa ser parado”. A doença degenerativa do raciocínio lógico ainda não está estabelecida nessa fase. Mas sua semente, se não for tratada, pode produzir uma erva-daninha. Por essa razão, os mestres do castelo sempre demarcaram esse tipo de equívoco, enfatizando o absurdo na esperança de que o discente, ainda conservando um sistema imunológico capaz de lhe prover a saúde, seja capaz de restituir à criação o que de algum modo lhe fora subtraído. O risco de omissão à essa altura, pode levar a um relativismo gradativo que tende ao caos e a princípios de incerteza que corrompem a razão e podem alcançar um ponto sem retorno conhecido.

Em determinado estágio, a degeneração do raciocínio lógico acaba por adquirir uma característica autoimune. É uma fase em que se puderam observar alguns comportamentos típicos como uma excessiva irritabilidade dos indivíduos, geralmente acompanhada de uma sensação de insuportável convivência, muitas vezes disfarçada em paradoxos típicos de um universo que perdeu a coesão das leis do pensamento, como a coragem covarde, caracterizada por rejeitar teses antagônicas com a violação do princípio da identidade, confundindo as almas com aquilo que defendem, de tal maneira a nutrir ojeriza por elas, disfarçando a ira desordenada por uma repulsa à opinião, descrita frequentemente como uma impossibilidade lógica na forma de adjetivos desqualificadores da tese ou da pessoa. A coragem advém da aparente defesa contumaz da violação de leis do pensamento sem que se esteja disposto honestamente ao diálogo, muitas vezes censurando vozes dissonantes com escusas ad hominem a ocultar a soberba que, incapaz de se satisfazer com a ordem intacta do restante do universo, deseja recriá-lo à sua própria imagem e semelhança, sem as âncoras naturais da ordem criada, pelo que é paradoxalmente covarde. Uma espécie de ficção acientífica.

Procedimentos sistemáticos que possam curar a enfermidade em seus estágios mais avançados de degeneração ainda não são totalmente conhecidos. Sabe-se que o convívio entre indivíduos sãos em detrimento dos doentes pode controlar alguns sintomas e, talvez, suprimi-los, de forma a produzir uma aparência de normalidade extrínseca, uma latência. Nesse sentido, a doença se compara ao vício, para os quais fazer cessar as ocasiões, resulta em menor exposição ao risco. Resta-nos pedir sempre a providencial intervenção do Criador a fim de restituir à criatura a visão de sua própria imagem, bem como os princípios que permitem inferir sua semelhança. E claro, cuidar para manter a coesão do universo que Ele criou e dispôs em ordem, de forma a não sermos nós os próximos pacientes.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Magistro

Quem ensina não descansa,
nem se cansa de esperar
que não morra a esperança,
no desespero do cansar.


As trevas que vê, não teme,
cria uma estrela, quer iluminar.
Mas o firmamento é rebelde,
eclipse hostil, insiste em nublar.

Eleva a voz de seus ventos,
irrompe as nuvens até passar
e mostrar a bonança no tempo!

Revolve as letras das flores,
poliniza as almas a fecundar
sementes de sábios amores!

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Sentido


Quando a vontade se dirige para fora,
E alcança quem está à sua volta,
Sacrifica a si mesma e não se importa,
Morre pela vida de quem nota.

Quando dois apenas um se tornam,
E diversos se dividem e se transformam,
Incomuns desaparecem e se desdobram,
Imbuídos nas graças que então brotam

Quem consente, jubiloso, a si doar,
Contente tem o céu para cantar,
Anjos e todos os santos a rezar.

Cada vida é um triunfo de quem milita,
Novas almas, o legado de quem confia
E multiplica seus talentos com sabedoria.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Rotação

Tudo está em paz.
Que mais é preciso?
Deixar o que se vai;
Ironia de um sorriso.

O viajante aldrava;
Traz a encomenda.
Ao que era pacífico,
Envia uma tormenta.

As águas se debatem,
Enquanto a esfera gira,
E quieto, o tempo late.

Como cão enraivecido,
Do remanso, sem piedade;
Descalabro da humanidade.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Lastro

Ventos movem pra longe,
quem se põe a navegar.
Nova brisa, novo horizonte,
outras terras pra caminhar.

Sussurros desconhecidos,
em idiomas a desvendar,
instigam nossos sentidos,
deixam decisões a tomar.

A consciência lança âncora,
Fixa o juízo no fundo do mar,
para manter a esperança.

Farol que leva à bonança,
não teme o que encontrar,
se a Verdade a alcança,

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Dez anos no castelo...

Esses dias, discretamente, completei uma década de magistério. Tempo propício para agradecer a Deus pelo tempo que me foi concedido; pelas almas confiadas a meus cuidados; pelas sementes celestiais de paciência que tentei cultivar, de maneira a alimentar a razão sem perdê-la, a ponto de avaliar como difícil para algum homem honesto se lembrar de algum ato indecoroso ou um tabuísmo que pudesse macular a dignidade do egrégio ofício que a benevolente Providência me outorgou. Entrementes, escuso-me se, de alguma forma, deixei de perscrutar o horizonte que me foi designado.

Agradeço pela impassibilidade a qual me permitiu seguir em frente contra a correnteza; contra o desrespeito e o desprezo aos anos de serviço; a lecionar a quem, por vezes, não desejava aprender; a respeitar o livre-arbítrio alheio, incluindo a liberdade de jogar a própria vida fora, a qual, muitas vezes, repassa a quem só almeja levar espíritos à luz da Verdade a covardia de não ser capaz de dizer isso às claras aos próprios pais e enfrentar as consequências.

Sou grato pela educação católica que fecundou a família em que nasci e que cresceu na alma com o corpo a ponto de se estabelecer como parâmetro fundamental que dá sentido à existência.

Consola-me saber que minha voz em uma sala de aula não costuma ser lembrada pela facúndia política, mas pela objetividade das lições, acerca de conteúdos que se referem à excelsa Ciência que tem por objeto o alfabeto com o qual o Senhor criou o universo e que, por caridade, resolveu compartilhar com a humanidade a habilidade para compreendê-lo e manipulá-lo, a fim de lembrá-la permanentemente de seu múnus de corresponder a aspirações por coisas mais altas.

"Gratias ago tibi, Domine" pelos anticorpos que a cada dia combatem o câncer das mágoas, do remorso, do ressentimento, conservando a sanidade espiritual; pela refeição, cuja sesta alivia nossos fardos e nosso cansaço em um coração manso e humilde.

Só Vós conheceis as horas. "Fiat voluntas Tua"! E continuai, obsequiosamente, a me conceder a graça de cumpri-la.

Ad majorem Dei gloriam.

Amém.

sábado, 18 de novembro de 2017

Caminho de Volta

Luz que ofusca na noite
de escuros dias sem norte,
em que velas de pouca sorte,
no vento se vão apagar.

Vento que constrange o voo
dos que na terra repousam
cansados do próprio esforço
no tempo se pondo a marchar.

Tempo que tudo perece,
no qual se nasce e se cresce;
a vida foge e se esquece
que dele não pode escapar.

Dele é o domínio da Terra,
de tudo o que nela se encerra
das almas que a morte liberta
para um dia à Luz retornar

domingo, 21 de maio de 2017

Movimento

Voltei ao lugar de onde vim,
de onde fugi sem ter ido,
não sei onde fui, eu não vi,
tão breve que há de ter sido.

Dormi, acordei, estava ali,
e dali percorri o caminho
caminhei por aí, logo ali
reconheci o velho destino.

Lá, revivi alguns bons tempos,
enterrados, largados ao relento
e que logo tornaram a morrer.

Adiante seguiram com o vento,
guardados, além dos momentos;
indo e voltando sem nada dizer.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Clima Hospitaleiro

Nada é muito diferente,
talvez o tempo lá de fora.
O Sol, após a chuva;
o arco-íris que aflora.

O périplo chega à metade,
do inverno se vê a aurora;
a paisagem se torna turva.
Quem não vê? Quem ignora?

O silêncio cumprimenta a alvorada,
que aldrava a porta, rompendo o dia
depois de se despedir da madrugada
de quem muito apreciou a companhia

Doce silêncio, cuja voz não perturba;
nunca demais na alma que inunda;
fragrância de paz na consciência turva;
uma ferida sem dor, antídoto e cura.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Navegando


A manhã revela o Sol,
Que adorna a solidão,
Tarde, passa da hora,
Despede a escuridão.

Tudo o que não se via,
Exibe-se, com distinção,
Então, o frio vai embora,
Não se aquece o coração.

No mar, além do horizonte,
Inalcançável, a embarcação
Que parte da vista ao longe.

Consigo, o dia levará,
A Lua, a noite trará,
Quem sabe, regressará...