quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Paulo Freire e Catolicismo

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”

D. Estevão Bettencourt, OSB
Nº  254 – Ano 1981 – Pág. 65.

(via Prof. Felipe Aquino) 

O MÉTODO PAULO FREIRE EM DEBATE

Em síntese: O método Paulo Freire de alfabetização é muito mais do que uma técnica de aprendizagem. Como o próprio autor o reconhece, é uma forma de despertar a consciência da população simples para a dualidade de opressores e oprimidos que caracteriza a sociedade atual, segundo P. Freire e outros pensadores. Mediante palavras geradoras o estudioso visa a suscitar na gente oprimida a conclusão de que é necessária a luta de classes. Assim a pedagogia se torna pregão político revolucionário. Ademais P. Freire tenciona extinguir a diferença entre mestre e discípulos, pois “ninguém educa ninguém nem ensina coisa alguma a alguém”. A escola passa, consequentemente, a se chamar “círculo de cultura”. Neste a educação é libertadora, problematizadora, e não domesticadora, bancária ou alienante.

Ora tal sistema deve ser reconhecido como politizante em sentido esquerdista. P. Freire, exilado do Brasil, tem colaborado com Governos de tendência marxista. Além do quê, é de notar que, embora professe não querer ensinar coisa alguma, o mestre, segundo P. Freire, tem o objetivo predefinido de levar os educandos a posições revolucionárias. Os textos citados no decorrer do artigo ilustrarão e desenvolverão quanto é dito nesta síntese.

Comentário: Paulo Freire, pensador pernambucano, ensinou na Universidade Federal de Pernambuco, onde dirigiu o Centro de Extensão Cultural. Mais tarde desempenhou a função de Consultor para Assuntos de Educação no Ministério de Educação e Cultura. Em 1962 fundou um movimento de educação popular no Nordeste. A revolução de 1964 levou-o a deixar o Brasil; foi então contratado pela UNESCO para servir em Santiago do Chile, onde trabalhou a formulação do Plano de Educação em Massa durante o Governo Eduardo Frey e sob Salvador Allende. Tornou-se membro da cúpula do Conselho Mundial das Igrejas e professor visitante da Universidade de Harvard (U.S.A.). Foi convocado pelo novo Governo de Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé como assessor em assuntos de educação. Atualmente tenciona voltar ao Brasil, onde exerce grande influência não somente através de suas obras, mas também através de comentários dessas obras.

Tem-se discutido a respeito do método de alfabetização concebido por Paulo Freire; especialmente a sua filosofia tem sido controvertida. Eis por que proporemos abaixo as grandes linhas do sistema Paulo Freire, às quais seguirão algumas ponderações.

1.    O sistema Paulo Freire

Examinaremos: 1) a tese fundamental de Paulo Freire; 2) as técnicas libertadoras dos “Círculos de cultura”; 3) o papel atribuído por P. Freire à Igreja.

1.1. A tese fundamental de Paulo Freire

O método de alfabetização de Paulo Freire é muito mais do que uma técnica para ensinar a ler; é, sim, a transmissão de uma filosofia de vida, que passamos a expor.

Parte da afirmação de que a sociedade contemporânea se apresenta em permanente conflito de forças contrárias umas às outras; a superação de cada atrito gera novo atrito. Essas forças antagônicas são designadas pelos termos “opressores” e “oprimidos”, sendo, em última instância, opressores os que possuem os meios de produção, e oprimidos os que não os possuem, mas oferecem o trabalho.

A situação de conflito em que vive a sociedade, não será superada por reformas ou por melhoramento das condições de vida dos trabalhadores; as reformas, em última análise, atenuam as tensões e diminuem as disposições de luta por uma transformação radical.

Ora, segundo Paulo Freire, a almejada transformação radical da sociedade exige um processo de educação das massas que as habilite a tomar consciência ou a conscientizar-se¹ da sua condição de oprimidos e as leve a empreender a sua libertação. Tal educação chama-se libertadora. Na educação libertadora, portanto, visa a despertar as consciências para que se movam em prol de uma sociedade nova, isenta de opressões.

A educação libertadora é, essencialmente, problematizadora: não deve trazer certezas nem suscitar segurança, mas, sim, levantar problemas e aguçar as tensões, a fim de provocar conflitos transformadores. A educação que não seja problematizadora e conflitiva, vem a ser puro assistencialismo, invasão cultural e alienação. – Sem educação libertadora torna-se inútil qualquer reforma das estruturas sociais, ainda que violenta e armada, pois a antiga ideologia permanece latente e pode ressurgir, restaurando as estruturas opressoras na sociedade.

É na base destas premissas que Paulo Freire apregoa a alfabetização; esta é, como dito, mais do que um método de aprendizagem da leitura, pois está inseparavelmente associada ao intuito de fazer do alfabetizando um agente revolucionário.

É isto que leva a dizer que Paulo Freire não tem apenas preocupações pedagógicas, mas é também movido por intenções políticas. Aliás, um repórter do Jornal da República de Recife, aos 31/08/79, interrogou Paulo Freire, de passagem pelo Brasil, a respeito de eventual filiação a partido político; ao que respondeu o mestre: “Faço política através da pedagogia”.

Escreve também Paulo Freire:

“A conscientização, associada ou não ao processo de alfabetização,... não pode ser blá-blá-blá alienante, mas um esforço crítico de desvelamento da realidade, que envolve necessariamente um engajamento político” (Ação Cultural para a Liberdade, p. 109).

“A educação libertadora não pode ser a que busca libertar os educandos de quadros negros para oferecer-lhes projetores. Pelo contrário, é a que se propõe, como prática social, a contribuir para a libertação das classes dominadas. Por isto mesmo é uma educação política, tão política quanto a que, servindo às classes dominantes, se proclama contudo neutra” (ib. p. 110).

Vejamos agora de mais perto em que consistem


1.2. As técnicas dos “círculos de cultura”

O conceito de educação libertadora derivado das premissas de Paulo Freire

- não significa transmissão de hábitos bons ou virtudes pelas quais o homem faça reto uso das suas faculdades, ordenadas segundo a razão, como propunha Aristóteles (+ 322 a.C.) em sua Ética a Nicômaco...

- nem significa ensinar a raciocinar e pensar, para que a criança, o adolescente e o adulto cresçam em ciência e saber.

Estas diversas acepções de educação, segundo Paulo Freire constituem o que ele chama “educação domesticadora, bancária ou alienante”.  Supõem um mestre que tenha conhecimentos verídicos e hábitos bons e comunique o seu cabedal ao educando como sendo valores e padrões válidos para este. Tal tipo de educação, diria o pensador pernambucano, é fruto das estruturas sociais de dominação e opressão e só serve para consolidar e perpetuar esta realidade vigente. A educação domesticadora mantém a diferença de classes, supondo que haja quem tenha saber e quem não o tenha, quem deva falar para ensinar e quem deva ouvir para aprender.

Paulo Freire explica em termos veementes o adjetivo “bancária” aposto ao tipo de educação que ele não aceita:

“Em lugar de comunicar-se, o educador faz “comunicados” e depósitos que os educandos, meras incidências, recebem pacientemente, memorizam e repetem. Eis aí a concepção bancária da educação, em que a única margem de ação que se oferece aos educandos é a de receberem os depósitos, guardá-los e arquivá-los. Margem para serem colecionadores ou fichadores das coisas que arquivam. No fundo, porém, os grandes arquivados são os homens, nesta... equivocada concepção “bancária” da educação. Arquivados, porém, porque, fora da busca, fora da praxis os homens não podem ser.

Na visão “bancária” da educação, o “saber” é uma doação dos que se julgam sábios aos que julgam nada saber. Doação que se funda numa das manifestações instrumentais da ideologia da opressão – a absolutização da ignorância, segundo a qual esta se encontra sempre no outro” (Pedagogia do Oprimido, p. 67).

A educação “bancária” ou “domesticadora” desumaniza, segundo P. Freire.

Que vem a ser, pois, a educação “libertadora” ou “problematizadora”, que P. Freire propõe em lugar da clássica maneira de educar?

1.2.1. Educador-educando

A educação, segundo o pensador pernambucano, apaga a distinção entre educador e educando. Em vez de falar de “educador do educando” e de “educando do educador”, falará de “educador-educando” e “educando-educador”.

“O educador já não é o que apenas educa, mas o que, enquanto educa, é educado, em diálogo com o educando, que, ao ser educado, também educa. Ambos assim se tornam sujeitos do processo em que crescem juntos e em que os “argumentos de autoridade” já não valem...

Já agora ninguém educa ninguém, como tampouco ninguém se educa a si mesmo; os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo. Mediatizados pelos objetos cognoscíveis, que, na prática “bancária”, são possuídos pelo educador, que os descreve ou os deposita nos educandos passivos” (Pedagogia do Oprimido, p. 78s).

1.2.2. Problemas e crítica

Em vez de transmitir certezas ou verdades seguras, a educação segundo P. Freire

-  levanta problemas,  apresenta desafios, mostrando o homem inserido no mundo e necessitado de acabamento;

-  suscita atitudes críticas ou rebeldes  em relação à realidade vigente:

“A educação problematizadora ... é futuridade revolucionária.  Daí que seja profética e, como tal, esperançosa.  Daí que corresponda à condição dos homens como serem históricos e à sua historicidade...  Daí que se identifique com o movimento permanente em que se acham inscritos os homens, como seres que se sabem inconclusos” (Pedagogia do Oprimido, p. 84).


1.2.3.    Círculo de cultura

Por isto também Paulo Freire já não quer usar a palavra “escola”, mas, sim, a expressão “círculo de cultura”.

“A liberdade é um dos princípios essenciais para a estruturação do “circulo de cultura”, unidade de ensino que substitui a “escola” autoritária por estrutura e tradição.  Busca-se no círculo de cultura, peça fundamental no movimento de educação popular, reunir um coordenador a algumas dezenas de homens do povo no trabalho comum pela conquista da linguagem.  O coordenador, quase sempre um jovem, sabe que não exerce as funções de professor e que o diálogo é condição essencial de sua tarefa – a de coordenar, jamais intuir ou impor” (Educação como prática da liberdade, p. 5).


1.2.4.    Diálogo.  Conteúdo programático

A educação, segundo P. Freire, recorre permanentemente ao diálogo.  É no diálogo que o educador-educando e o educando-educador vão descobrindo os problemas e tentando renovar a sociedade.

O diálogo compõe-se de palavras.  Ora a palavra, para Paulo Freire, tem significado muito especial.  Sim; há nela duas dimensões: a ação e reflexão, solidárias entre si; não há palavra verdadeira que não seja praxis; daí dizer-se que a palavra verdadeira seja transformar o mundo (cf. Pedagogia do Oprimido, p. 91).

Estas afirmações de Paulo Freire não podem deixar de recordar as de Karl Marx: “Até aqui os filósofos não fizeram mais do que interpretar o mundo; trata-se agora de transformá-lo” (Tese sobre Feuerbach).

É através do diálogo que se elabora o conhecimento programático da educação; este não é concebido e formulado previamente pelo mestre, mas é descoberto mediante o intercâmbio realizado no grupo.  Escreve P. Freire :

“Para o educador-edicando, dialógico, problematizador, o conteúdo programático da educação não é uma doação ou uma imposição – um conjunto de informes a ser depositado nos educandos, mas a devolução organizada, sistematizada, e acrescentada ao povo, daqueles elementos que este lhe entregou de forma inestruturada” (Pedagogia do Oprimido, p. 98).

E. P. Freire, a propósito, cita Mao-Tsé-Tung:

“Você sabe que, há muito, venho proclamando: Temos que ensinar às massas com precisão o que delas recebemos com confusão” (ib. p. 98).

1.2.5.    Palavras geradoras


Para elaborar com o povo o programa de educação, o educador revolucionário procurará com o povo palavras geradoras, isto é, palavras mais usuais, relevantes e evocadoras na linguagem popular; são palavras carregadas de experiência vivida e decisivas, como, por exemplo, favela, tijolo, trabalho, roupa, feijão, jarro, latifúndio ... Estes vocábulos são úteis não apenas à análise das letras e dos fonemas, mas também à reflexão sobre a realidade cotidiana em que está imerso o povo, pois geram aspirações, decepções e expectativas.

Estas palavras geradoras são escritas em cartazes ou apresentadas em dispositivos; os membros dos círculos de culturas, reunidos eventualmente em uma casa de família, discutem tais vocábulos para decodificar a situação existencial que eles codificam, e para descobrir as causas e as conseqüências sócio-políticas de tal situação.

As palavras geradoras tornam-se, nos cursos mais evoluídos, temas geradores de debates para todos os participantes do círculo de cultura.  Mais importante do que a decomposição analítica das sílabas e letras que constituem a palavra geradora, é a discussão sobre a situação desafiadora que tal palavra exprime.

1.2.6.     Revolução

O fruto dessa educação dialógica e crítica há de ser, segundo P. Freire, uma revolução cultural, revolução que se oporá à invasão cultural.  Com efeito, os opressores tendem a impor a sua cultura aos oprimidos, praticando assim uma invasão cultural, que, aliás, os próprios oprimidos tendem inconscientemente a aceitar; sim, os oprimidos têm, não raro, medo da liberdade; por isto tendem a conservar os padrões culturais e os mitos que os opressores lhes incutem.

Em conclusão, verifica-se que o método educacional de Paulo Freire está essencialmente vinculado a uma ideologia, isto é, a uma visão filosófica que tende a transformar a sociedade, induzindo nesta uma autêntica subversão.  É o próprio Paulo Freire quem o afirma numa entrevista publicada em “Veja” (20/06/79); o repórter aventou a hipótese de que a educação de Freire fosse um método “assexuado”, neutro, descomprometido com qualquer ideologia.  Ao que P. Freire respondeu :

“Quem disse isso, ou não entendeu nada ou está de má-fé.  Em meu método, parte-se do conhecimento do meio em que se vai desenvolver a experiência de educação.  Toma-se em consideração o universo vocabular do grupo em questão, as palavras que são utilizadas todos os dias e que exprimem a vida cotidianas daquelas populações.  Desse universo vocabular são escolhidas as palavras geradoras.  Estas palavras encontram em si os temas de discussão que deverão corresponder aos interesses dos alfabetizados e deverão constituir o primeiro passo, por meio da discussão em grupo, em direção a uma tomada de consciência individual e coletiva dos problemas discutidos.  Esse aspecto puramente mecânico poderá ser utilizado por qualquer pessoa: tirar uma palavra geradora de um universo vocabular também pode ser feito por alguém que pretenda mistificar a realidade e a consciência dessa realidade.  De minha parte, o conhecimento de uma realidade, que vai sendo construído pouco a pouco a partir da experiência dos alfabetizandos, está intimamente ligado à consciência crescente da capacidade de mudar essa realidade.  Conhecer para transformar,  é este o objetivo.  O que ficou sendo conhecido como Método de Alfabetização Paulo Freire, não é algo que se possa reduzir a um aprendizado meramente lingüístico.  Trata-se de aprender a ler a realidade – conhecê-la – para em seguida poder reescrever essa realidade – transformá-la”.

1.3.      Paulo Freire e a Igreja


Paulo Freire não é hostil ao Cristianismo em seus escritos.  Ao contrário, apregoa a participação da Igreja Católica no processo educacional problematizador.  Para tanto, distingue três tipos de Igreja :

1) A Igreja tradicionalista, que, segundo Freire, está associada às camadas dominantes.  O pensador pernambucano desfigura a Igreja no sentido clássico, fazendo eco, de certo modo, aos dizeres de Karl Marx sobre “a religião ópio do povo’  Cf. Pedagogia do Oprimido, pp. 116s.

2)  A Igreja modernizante,  adepta do desenvolvimento econômico.  Esta, embora pareça diferir da anterior, entretêm a dependência dos oprimidos e não se empenha pela real libertação das massas, isto é, não colabora com os movimentos de revolução social; defende as reformas estruturais e não a transformação radical das estruturas; fala em “humanização do capitalismo”, e não em suta total supressão.  Cf. Pedagogia do Oprimido, pp. 118-124.

3)  A Igreja profética.  Esta “recusa os paliativos assistencialistas, os reformismos amaciadores, e se compromete com as classes sociais dominadas para a transformação radical da sociedade” (Pedagogia do Oprimido, p. 124).  Rejeita toda forma estática de pensar; sabe que, para ser, tem de estar sendo; sabe igualmente que não há um “eu sou”, um “eu sei”, um “eu me liberto”, um “eu me salvo”, como não há um “eu te dou conhecimento, um “eu te liberto”, um “eu te salvo”, mas pelo contrário um “nós somos”, um “nós sabemos”, um “nós nos libertamos”, um “nós nos salvamos”.  Este tipo de Igreja propugna a chamada “teologia da libertação, profética, utópica, esperançosa”, optando pela transformação revolucionária da sociedade e não pela conciliação dos inconciliáveis.


Para Paulo Freire, a única atitude autêntica do cristão é a profética, pois quem não se compromete com os oprimidos se compromete com os opressores.

Perguntamo-nos agora:

2.    Que dizer ?


Não podemos salientar a intenção fundamentalmente reta de Paulo Freire, que se preocupa com as massas e o proletariado, visando à promoção dessa parte das populações do Terceiro Mundo.

Também não desconhecemos o valor do respeito à liberdade que Paulo Freire propugna, rechaçando qualquer tipo de sufocação da personalidade e dos direitos das pessoas mais humildes.

A defesa de valores humanos torna certas páginas de Paulo Freire simpáticas a quem as aborda pela primeira vez.  Todavia uma leitura mais atenta dos seus escritos evidencia, nos mesmos, traços incompatíveis com as autênticas concepções cristãs.

2.1.                          Os princípios de Freire

Merecem atenção especial os seguintes princípios de Paulo Freire:

1) O pensador pernambucano professa a subordinação do conhecimento e da palavra à transformação do mundo ou à praxis:

“A mera captação dos objetos como das coisas é um puro dar-se conta deles e não ainda conhecê-los” (Extensão ou Comunicação, p. 28).

“O homem não pode ser compreendido fora de suas relações com o mundo ... O homem é um ser da praxis ... Não há possibilidade de dicotimizar o homem do mundo, pois que não existe um sem o outro” (ib.)

Tais frases lembram os princípios do marxismo, que limitam as aspirações do homem à transformação deste mundo e ignoram o valor do conhecimento como apreensão da verdade, qualquer que seja a índole desta.  Não se pode dizer que a eficácia transformadora do conhecimento seja o critério da autenticidade do conhecimento.  Nem se pode fazer da repercussão política e social de determinada proposição o critério do valor de tal proposição.

A realidade ou a extensão do ser é mais ampla do que o âmbito do sócio-econômico-político.  Por isto há enorme valor em conhecer também as verdades que não se prendam diretamente ao político; há verdades de ordem especulativa, que não alienam necessariamente o homem, mas o podem habilitar a ser mais sábio transformador deste mundo.  A filosofia cristã sempre professou o primado do Logos (do conhecimento como tal, teórico ou prático).  Sobre a praxis; esta decorre daquele, e não vice-versa.

2) A crítica ou a problematização não pode ser o primeiro passo da inteligência.  Esta foi feita para a verdade como tal, ou seja, para reconhecer e afirmar a verdade; foi feita, antes do mais, para o Sim.  O Não ou a contestação só tem sentido se proferido em função de um Sim anterior.  É preciso, pois, antes do mais, que a inteligência se disponha a apreender a verdade como tal numa atitude otimista e confiante; só depois disto poderá ela com fundamento dizer Não à Não-verdade ou à Não-autenticidade.  A problematização como princípio de “educação” pode deformar os hábitos do educando; é não raro a expressão de neurose mórbida, que leva a atitudes doentias.

2.2.                          Educação domesticadora x Educação libertadora

A antítese acima, estabelecida por P. Freire, é artificial por três motivos:

2.2.1.       Memorização x conhecer


Conforme P. Freire, a educação domesticadora se identifica com memorização, ao passo que a libertadora propicia conhecimento (cf. Pedagogia do Oprimido, p. 79).  Ora tal antítese é insustentável, porque o ser humano, dotado de inteligência como é, é sempre propenso a raciocinar e mesmo a criticar as noções que receba dos mestres.

Note-se também que será sempre necessário decorar tabuada, nomes de capitais, rios, datas da história ... (infeliz o cidadão que não saiba de cor tais elementos!), P. Freire o reconhece, mas julga que, além da memorização, deve haver na escola uma doutrinação filosófica de ordem politizante e marxista, de modo a atirar classe social contra classe social.  E nesta doutrinação que consiste a novidade da educação libertadora ou problematizadora.  E é precisamente esta doutrinação que faz do método P. Freire algo mais do que um sistema educacional, tornando-o instrumento de política partidária ou de infiltração esquerdizante nas massas populares.  Quem aceitou o método Paulo Freire, aceitará consequentemente a luta de classes na sociedade e a revolução armada de inspiração marxista.

Note-se também que em nossos dias os métodos de aprendizagem recorrem às técnicas audiovisuais, à análise e à indução.  O aluno é chamado a participar de seminários e fazer pesquisas (na medida em que ele o possa e queira).  Os responsáveis pela educação em alguns lugares costumam também ouvir os alunos (ou os pais dos alunos) a respeito de grandes decisões a ser tomadas na escola.

2.2.2.                 Educação libertadora também é domesticadora

A educação libertadora proposta por Paulo Freire não deixará de ser também domesticadora1 .  Com efeito, diz o próprio mestre que não há ciência nem técnica assexuada ou neutra, mas que tanto a ciência quanto a técnica estão condicionadas histórico-socialmente (cf. Extensão ou Comunicação?, p. 34).  Isto significa que na educação libertadora o educador não pode deixar de dirigir e manipular; ele tem um objetivo pré-definido e se empenha por atingi-lo, pois quer que a turma chegue a atitudes críticas e acirradas. A escolha das palavras geradoras, embora se faça por sugestão do grupo, não pode deixar de estar sob a responsabilidade última do coordenador; o mesmo se diga em relação ao debate sobre tais palavras, que, em última instância, é conduzido pelo mestre para que chegue à conclusão de que tal grupo é explorado e oprimido a ponto de ter que se insurgir violentamente contra os seus opressores. Em outras palavras: o sentido da conscientização já está de antemão definido. 

2.2.3.                 O nivelamento de educador e educando

Não há dúvida de que todo mestre há de ser aberto à aprendizagem de novas e novas verdades, como também à reformulação de seus conceitos; o progresso no saber é-lhe muitas vezes ocasionado pelo convívio com os próprios alunos.

Isto, porém, não quer dizer que o professor se deva julgar tão educando quanto o próprio discípulo.  Um tal esvaziamento do conceito de mestre vem a ser nocivo aos alunos, pois estes precisam de sentir firmeza e segurança no seu orientador.  A profissão da verdade deve ser efetuada com desassombro e sem subterfúgio, mas também com humildade.  Pelo fato de ter descoberto a verdade sobre tal ou tal assunto, o mestre é devedor em relação aos seus alunos, e deve pagar-lhes a dívida, comunicando e demonstrando a verdade; proponha os pontos certos e indubitáveis como certos, e os pontos ainda discutíveis como discutíveis.  Esta oferta da verdade, longe de ser desrespeito ao próximo, é precioso serviço prestado ao mesmo.

Por isto também não se pode aceitar a frase: “Ninguém educa ninguém” (Pedagogia do Oprimido, p. 79).  Na verdade, os homens são dependentes uns dos outros para eduzir (educere > educar) as virtualidades latentes no seu íntimo.  Em geral, são os pais, no lar, e os mestres, na escola, que educam os mais jovens; afirmar isto não significa “estar a serviço de algum sistema político opressor”.  O desempenho da autoridade não é algo de vergonhoso que se deva banir, mas, ao contrário, é um serviço que não se pode extinguir e que faz eco às palavras de Cristo: “O Filho do Homem veio não para ser servido, mas para servir” (Mc 10,45).

2.3.           Igreja e libertação


P. Freire distingue entre Igreja tradicional, Igreja modernizante e Igreja profética; só aceita esta última porque toma o partido revolucionário dos oprimidos.

Na verdade, existe uma só Igreja, embora possa haver diversas atitudes de cristãos.  A única Igreja de Cristo interessa-se, sem dúvida, pela pólis e pela arte de a reger (política), pois Cristo lhe confiou a tarefa de apregoar o Reino de Deus neste mundo.  Todavia a Igreja não pode, como tal, exercer política partidária ou participar de ação subersiva marxista.  O S. Padre João Paulo II o lembrou sobejamente durante a sua estada no Brasil e de novo o disse em carta escrita aos Bispos do Brasil em dezembro de 1980, carta da qual extraímos os seguintes tópicos:

“Através de minha viagem pelo Brasil eu quis reafirmar a convicção primeira, profundamente erraizada em meu espírito, de que a Igreja é portadora de uma missão essencialmente religiosa, e cumprir essa missão é seu dever prioritário ...

É certo que a missão da Igreja não se confina nas atividades de culto e no interior dos templos ...

Mas não é menos certo que a Igreja perderia sua identidade mais profunda – e, com a sua identidade, a sua eficácia verdadeira em todos os campos – se sua legítima atenção às questões sociais a distraísse daquela missão essencialmente religiosa que não é primordialmente a construção de um mundo material perfeito, mas a edificação do Reino que começa aqui para manifestar-se plenamente na Parusia ... A Igreja cometeria uma traição ao homem se, com as melhores intenções, lhe oferecesse bem-estar social, mas lhe sonegasse ou lhe disse escassamente aquilo a que mais aspira (por vezes até sem o perceber), aquilo a que tem direito, que espera da Igreja e que só ela lhe pode dar” (extraído do JORNAL DO BRASIL, 7/01/81, 1º cad. P.4).

De resto, a divisão da sociedade em duas classes – a dos opressores e a dos oprimidos – é artificial e injusta.  Há muitos cidadãos que, numa perspectiva marxista, seriam colocados entre os opressores, mas que nada fazem por oprimi; não é o fato de não participar de movimentos subversivos que torna o cidadão opressor.

São estas algumas ponderações que desejamos propor à margem dos escritos de Paulo Freire, tentando evidenciar que, apesar das aparências, servem a uma ideologia não cristã e, por isto, não são cartilha para o educador católico. 

_________________
1 Paulo Freire é o primeiro a aplicar as palavras “conscientizar” e “conscientização” ao setor da pedagogia.  Com seu conteúdo vernáculo específico, tais vocábulos foram introduzidos no vocabulário de idiomas como o francês e o alemão, tidos como intensos à aceitação de neologismos.
1 Melhor seria não usar tal vocábulo, que é pejorativo e caricatural. Preferimos dizer: “educação diretiva e orientadora”.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Tempo Incomum

Os dias que antecedem a vitória de Cristo sobre a morte são chamados de Tríduo Pascal. A transição entre o tempo comum e o período de preparação para a Páscoa da Ressurreição, é permeada, outrossim, por três dias bem singulares. A "sabedoria" popular chama esse período pela alcunha de carnaval.

Por Tradição, dizemos que Nosso Senhor desceu aos infernos, por ocasião se sua Paixão, a fim de abrir as portas dos céus às almas dos justos que lá esperavam a justificação. Talvez, analogamente, pudéssemos fazer memória deste fato nessa época que antecede a quaresma; quem sabe, chamarmos tríduo infernal a esse tempo incomum que termina uma fração do tempo comum?

É difícil encontrar similares para o grau de devassidão moral que se dissemina um pouco por toda parte, a partir da sexagésima,  progressivamente tanto quanto mais nos aproximamos da quarta-feira de cinzas. Aliás, nada mais coerente do que, depois de descer aos infernos, tomar nota dos restos deixados por suas chamas; ou do pó onde todos acabamos.

É, pensado dessa maneira, talvez o carnaval tenha realmente sua utilidade prática.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Oxidação do Raciocínio

O ponteiro cruza a circunferência do relógio a cada segundo, carregando os corpos dos minutos e das horas em seu périplo. Ele faz isso sem pestanejar; não faz caretas, tampouco emite qualquer estrilo de reclamação. Ao contrário, navega passando pelos mesmos lugares sem se fatigar da paisagem, alterada tão somente pelos céus de onde estrelas brilhantes de almas humanas fitam o tempo e dão a ele uma medida. O que o relógio é para os pequenos naturais que o habitam, o mundo parece ser para os grandes mortais que fabricam esses microplanetas mecânicos. Com efeito, todos estamos, de certa maneira, enclausurados; inseridos dentro de uma esfera que à revelia da vontade cruza o espaço empurrada por ventos gravitacionais exalados por árvores que ninguém no mundo plantou. A diferença reside no protesto em potencial. Ou nessa característica singular que permite a recalcitração.

Um homem projeta o mecanismo que move os ponteiros do relógio com precisão suficiente para lhe responder com confiança, mas não consegue antever com a mesma precisão se seu filho será capaz de guardar suas promessas. Diz a canção: “Like or unlike all my parents / I dont want to escape it”. E não se pode escapar! Uma linha muito tênue marca o fim do domínio humano; o término da concessão. Sim, pois como certos entes estatais são confiados à administração de terceiros sem, contudo, deixar de pertencerem ao Estado, assim também conosco ocorre que, tendo soprada a vida em nosso corpo, animamo-nos e nos habilitamos para dispor daquilo que, em última análise, jamais nos pertenceu, posto que não construímos ou adquirimos.

 A potência que nos permite a reclamação escorre da mesma fonte que nos habilita a tomar consciência do abismo que separa a matéria da enigmática geratriz universal. Nossa compreensão exata das coisas alcança seu ápice quando nos apercebemos quão exata é a inexatidão de respostas oferecidas ao nos confrontarmos com tudo o que existe no mundo. Damos-nos conta da insuficiência de nossas forças e, nesse estágio, passamos à escolha de novas estradas. É aqui, no início do entendimento sobre o entendimento, que o homem deve começar a encontrar o seu fim; as motivações de sua existência. Infelizmente, também é este o trevo que dá acesso à DDRL – à via que leva à degeneração do raciocínio porque este é voltado contra si mesmo e passa a se autodestruir. 

 Pífio homem! Ciente de quão pequeno se encontra em comparação com a vastidão católica tomará, geralmente, o caminho das nuvens, considerando que, existindo muito mais nos céus que em terra, razoável seja supor que haja mais a almejar nas alturas. De outra sorte, incauto o intelecto daquele que, percebendo-se incapaz de resolver toda equação, decide solucionar o problema por exclusão; como alguns poderiam fazer para representar didaticamente todo o universo dos números naturais: Ninguém tentaria fazer caber todos eles em uma folha de papel. Toda representação é realizada com base amostral. Mas mesmo nesse caso uma parte do raciocínio se transporta do campo concreto ao abstrato e se dissolve em uma espécie de vácuo espacial para definir a infinitude do conjunto; em outras palavras, o intelecto transcende o papel para manter intacta a essência do universo trabalhado. Não ocorre o mesmo com quem, no cruzamento, toma o caminho errado.

 Quem fecha a questão sem resolvê-la, abre a ponte aos carros sem terminá-la. O resultado é previsível: os carros caem no rio.

 Em algum ponto da história, o ser humano achou que deveria responder tudo e, como resultado, creu que tudo aquilo ao qual não pudesse oferecer uma satisfatória explicação concreta seria certamente objeto de uma explicação concreta sem notar o quanto paradoxal esta afirmação se transforma ao considerarmos que a asserção das explicações concretas para tudo carece de uma mesma explicação concreta para si própria. De fato, não há consequência lógica aí, porque assim como a existência do homem não dependeu de sua vontade (e nem da de seus pais, pois jamais foram capazes de prever sua concepção senão aceitá-la como possibilidade real – ninguém constrói uma vida senão contando com o obséquio fortuito, como a semente que se planta e se espera que nasça, sem nunca descartar a possibilidade de que ela pode não “pegar” – e isso vale mesmo para fertilizações efetuadas de maneira artificial), a existência de uma explicação concreta também escapa ao seu domínio. Aliás, não é sem razão que domínio tem raiz etimológica latina em Senhor. E o homem não é senhor de si mesmo; ou do mundo.

 Desorientado por sua premissa equivocada; orientado pelos preceitos de sua embriaguez intelectual, o ser humano ao se deparar com a própria ignorância sob a alcunha de inteligência, ao invés de se voltar para aquilo que complementa a imensa escuridão de sua razão, isto é, olhar para luz, exclui de sua concepção de mundo tudo o que não se encaixa. Ao invés de continuar a montar todo o quebra-cabeça, mesmo considerando a possibilidade de que nunca chegará ao fim, prefere decidir com as peças que têm em mãos gerar distinto quebra-cabeça e impor nele o seu próprio final. O resultado é desastroso. Como seria se o matemático, impedido de alcançar a outra margem dos naturais, resolvesse descartar os que estavam longe. Ao contrário do ponteiro a cumprir seu papel em sua jornada circular pelas mesmas paisagens, o homem se rebela contra seu papel em sua jornada infinita e linear por paisagens portentosas nunca antes visitadas. O ponteiro anda em círculos porque deve. O ser humano anda em círculos por livre vontade.

 Minando a certeza razoável da transcendência pela incerteza não razoável da potencial onisciência humana, o homem funde o próprio intelecto, atingindo-lhe diretamente em ponto essencial, de tal maneira que ele já não consegue mais se desenvolver e, estagnado, enferruja até que não se sustentado mais sozinho se quebra.


Thiago Amorim Carvalho
Pro Catholica Societate

domingo, 16 de agosto de 2009

Epidemia... De médicos a sacerdotes, ortodoxia só no vírus

Temos em “mãos” (ironic mode) uma doença respiratória que, já há bastante tempo, é velha conhecida dos seres humanos: a gripe, causada pela(o) má(mau) “influenza”. Nessas férias, fui acometido por uma forte síndrome gripal quando estive em João Pessoa, na Paraíba. Os sintomas começaram já no dia do embarque e se limitavam a febre, tosses bem esparsas e sem coriza (muco), com suportável dor de cabeça, tratada à base de minha estimada dipirona – popularmente conhecida como Novalgina®. Infelizmente, meu analgésico predileto, por vezes, interfere em minha pressão arterial, baixando-a a níveis perigosos (hipotensão). Ademais, supõem-se certas consequências negativas relacionadas a seu uso no sistema imunológico. Por causa disso, sempre mantive as doses do medicamento em linhas muito abaixo das padronizadas, até para crianças, o que só é possível com a versão em gotas e, é claro, comigo!

 

O engraçado dessa história é que não estou muito acostumado a adoecer (como se alguém estivesse, não é mesmo?). O que quero dizer é que a última vez, antes de 2009, que estive de cama, simplesmente não lembro, porque isso tem muito tempo (se é que alguma vez ocorreu). Todos por aqui têm históricos médicos. Eu descobri que a idade de minha ficha médica devia ter uns 10 anos. Bom! Porque o fato se relaciona à minha saúde. Diria que é historicamente boa, sem registros de alergias ou patologias. Nenhuma cataporazinha, rubéola, caxumba ou coisa que o valha. Muito justo que se dê crédito à minha genitora, bastante auspiciosa em relação a vacinar todos contra tudo o que se possa imaginar. Lembrei que, faz pouco tempo, ela ordenou vacinação geral contra febre amarela só porque nós iríamos ao Maranhão!

 

Mas voltando ao assunto, na Paraíba, vi-me realmente doente pela primeira vez em longo tempo. Já tive resfriados antes; ou mesmo gripes, com febre (baixa; abaixo dos 38ºC). Nunca precisei deixar de fazer algo por causa de uma gripe ou febre (sou bem teimoso com relação a doenças – não me sigam!). Minha rotina seguiu a rota: café-cama-almoço-cama durante ao menos as primeiras 48 horas da viagem. Nada que mereça ser destacado senão a febre em variáveis 37,5º C e 38º C. Irritava, mas não chegava a me impedir de executar tarefas leves. No terceiro dia, a febre desapareceu. Mesma coisa depois. E depois. Tanto que fui sem problemas à Missa dominical em uma paróquia próxima ao hotel – o Evangelho era sobre a multiplicação dos pães, aliás, com homilia realizada sob viés marxista (teologia da libertação). A situação parecia tranquila até que decidimos conhecer o Santuário Nossa Senhora da Guia, em Lucena, um outro município. No caminho, o ferryboat, as malditas balsas que em alguns locais, especialmente no Nordeste, fazem a travessia fluvial em todo lugar onde deveria haver uma ponte e não há (pra quem não conhece minha opinião sobre balsas, já dá pra ter uma ideia)! Eis que, no retorno, tivemos que aguardar cerca de uma hora e meia até que aquela placa flutuante retornasse ao atracadouro para nos levar de volta, passando um pouco da hora do almoço. O tempo estava bom, porém com ventos não desprezíveis e ainda uns rápidos pingos d’água. Não havia cobertura no pátio da área de espera e, fora do carro, o jeito era aguardar ao relento.

 

De volta a João Pessoa, seguindo a rotina familiar a qual, com a Matriarca presente, costuma consistir em ver e adquirir futilidades em mercados exóticos, não demoraria muito até que alguns sintomas se expressassem de maneira a revelar uma alteração significativa no comportamento de meu organismo a partir de então. Eles queriam dizer alguma coisa para que eu interpretasse; uma asserção, resumida de modo vulgar como: “Vai dar m....!”. O fato é que eu entendi e decidi retornar ao hotel, no que fui acompanhado por meu irmão. Era uma recaída violenta: uma perturbadora dor na região da coluna (que alguns alegaram ser dor nos rins), foi acompanhada da elevação da temperatura. Medida em um primeiro momento em cerca de 37,5º C, uma dosagem de adulto de dipirona (não elaborada por mim) sem considerar minha pressão normalmente baixa conseguiu piorar ainda mais as coisas. É bem verdade que não tinha medidores de pressão na mala, mas julgo que ela deveria estar em uns 7, 8 por alguma coisa. Bem, o fato é que a febre (ao contrário de minha pressão) aparentemente ignorou solenemente o antipirético e seguiu subindo até se estabelecer em quase 39º C. Daí em diante não conseguia fazer mais nada. Cogitaram um hospital, pegaram alguns telefones, mas eu recusei com veemência. Era uma gripe, que podia ser comum, podia ser suína e sendo uma ou outra, o pouco de meu cérebro funcionando me dizia que não era lá que eu encontraria ajuda; Minha intuição pedia que eu ficasse em casa, dormisse se possível e rezasse. De fato, passo longe de qualquer pseudogrupo de risco, o que, nesse país, exclui uma pessoa de qualquer possibilidade de receber um antiviral. Daí, meu frágil intelecto questionar: “O que é que tu vais fazer num hospital? Se tiveres gripe, nada farão; se tiveres a comum ainda te arriscarás a pegar a outra com aquele monte de suspeitos. Se for pneumonia, vão passar antibióticos que são vendidos na farmácia da esquina e isso, possivelmente, após raios-X que ainda demandarão certo esforço que tu não estás afim de fazer agora – sem falar na espera. Ademais, se não consegues nem ir ao banheiro andando, que te compensas a fadiga de levantar, sair ao vento à beira-mar e enfrentar trânsito até uma unidade hospitalar? Aborrecer-te-ás com algum médico ou alguém e vais acabar é morrendo”. Isto posto, dormi. Acordei ainda na madrugada e fui tomar um banho, depois do que a febre baixou. Ah! Nesse ínterim, orientada por meu antigo pediatra (isso mesmo; o único médico com o qual tinha algum histórico), buscaram amoxilina para tratar uma possível pneumonia (tratamento que foi seguido rigorosamente, aliás, nos sete dias que se sucederam, pois se sabe que é imbecil interromper o efeito de antibióticos). Bom, no dia seguinte, a febre já estava em níveis “confortáveis” (37ºC). Mais tarde, voltaria a desaparecer. Nada parecido voltaria a ocorrer até que, por irritante insistência familiar, levaram-me ao médico.

 

Preciso abrir uma questão de ordem: meu relacionamento com médicos é péssimo e acho que justamente devido ao fato de não ter tido nenhum durante longo tempo. Muitas pessoas têm médicos de confiança. Bem, eu tenho desconfiança de médicos, porque as notícias que me chegavam da classe estavam sempre relacionadas à relação deles para com pessoas próximas, familiares; e, por alguma razão, não descartada a infeliz coincidência múltipla, as consequências de tratamentos, diagnósticos e atendimento de profissionais da área a agentes de meu círculo afetivo passaram muito longe do que eu considero ideal, beirando ao que considero irresponsável. Isto deve me tornar o que alguns chamariam de paciente difícil.

 

Bem, uma consulta foi marcada, sem que eu fosse consultado (ironic mode), e por irritante insistência fui ao médico quando cheguei ao Rio. Antes não tivesse ido!

 

14h era o horário marcado. Saí de casa praticamente sem almoçar (só com o café). Chegando ao consultório, uma sala com alguns pacientes febris e tossindo. A imagem já não me agradou. “Tudo bem”, penso eu. “Vamos acabar logo com isso!”. Logo? Passaram-se umas duas ou três horas até que médico chegasse – período dentro do qual antevi outra recaída – alarme interpretado, do gênero: “Vai dar m.... de novo!” – e cheguei a solicitar a meus pais que embora fôssemos. Ele estava no hospital atendendo pacientes com suspeita de gripe em meio ao caos. Pedem-se alguns exames, entre os quais um raio-X que tempos depois revelaria ausência de pneumonia. Já era noite quando voltamos para casa. E sem que eu fosse o Vidente, acertei a previsão. Era a segunda recaída, com os mesmos efeitos da primeira: febre se elevando até quase os 39ºC. Dessa vez, porém, sem a hipotensão, já que evitei o antipirético até que ela fosse medida em uns 11 por alguma coisa. (meu normal é entre 9 e 11). Então tomei uma dose baixa. Nesse dia não comi nada, porque após os trâmites dos sintomas não reunia apetite suficiente para tal. Esta recaída me impediria de comparecer a alguns compromissos importantes previamente programados. E não sai da minha cabeça o fato de que poderia ter sido evitada se eu simplesmente ficasse em casa.

 

Enfim, não sei até hoje qual gripe tive, se a suína, bovina, caprina, equina, felina, humana etc. Não sei; não quero saber e só não tenho raiva de quem sabe, porque quem sabe é meu organismo, já quase recuperado (parece que um resfriado resolveu emendar o soneto). O que sei é que foi forte e pouco habitual para meus padrões. Também sei que meu ato-reflexo quando espirro consiste em levar a mão a boca para deter partículas expelidas ao ar. A mesma mão que, em muitas dioceses, anda sendo adulada como método de distribuição da comunhão sob a égide profilática em relação à gripe. Não posso deixar de dizer o quanto inócuo isso me parece.

 

Segundo o Houaiss, inócuo, é uma palavra capaz de adquirir, conotativamente, o sentido de algo incapaz de produzir o efeito pretendido. Pois bem, dizem que comungar na boca aumenta os riscos de contágio. Pode até ser, mas o fato é que não vejo como comungar somente na mão possa reduzir esse risco de forma considerável. Isso, é claro, sem entrar no mérito da jurisdição de igrejas particulares sobre coisas que competem exclusivamente à Igreja Universal como a disciplina sobre a distribuição da Comunhão. Se existe uma parte nojenta do corpo humano, essa parte é a mão. A mão que alguém usa para espirrar e que pega o folheto dominical que é geralmente assentado posteriormente sobre uma pilha para reutilização na missa seguinte por outro fiel que vai pegar essa mesma mão e levar ao rosto para tirar aquela mecha de cabelo que insiste em atrapalhar sua visão. Mãos que tocarão os bancos, o dinheiro do ofertório; mãos que vieram dos ônibus, dos trens, dos metrôs; que retiram panfletos colocados nos parabrisas dos carros, colocados sabe-se Deus por quem. De que adianta isso como prevenção? Proibir a comunhão de qualquer jeito me parece bem mais eficaz. Infelizmente, receio que tal medida seja o estopim para a implantação de certas ideologias heterodoxas sobre higiene. E começo a me perguntar quando o procedimento normal será restabelecido e, mais ainda, que diferença há entre os tipos de gripe para que justifiquem tal comportamento em relação a uma e não em relação à outra a qual nos faz companhia há muito mais tempo, matando gente também, inclusive? Alguém poderia dizer que essa cepa tem uma ação mais contundente em certas frações da população, como gestantes e idosos. Pois bem, isso é simples de resolver: dispensem-se essas pessoas do preceito, atitude não só coerente, como perfeitamente lícita e dentro da jurisdição das igrejas particulares. Mesmo porque todos respiram e, ao menos a maioria, falam e o falar faz com que gotículas sejam lançadas para todo lado dependendo tão somente da boa-vontade do ar para locomoção. Pior ainda o caso daquelas igrejas que, adotando a comunhão na mão, ainda são capazes de ligar os ventiladores que espalharão espirros em direções múltiplas sempre que isso for conveniente. E digo mais, julgo que a probabilidade de o ministro responsável pela distribuição tocar a mão do fiel é muito maior que a probabilidade de ele tocar sua boca. Com efeito, em tempos epidêmicos, muito mais cuidado teria uma alma sensata (ao menos eu teria) ao ministrar a Eucaristia a um fiel pela boca que, iludido por uma prevenção inócua, o contrário. Por que não instruem os fiéis a que se ajoelhem lateralmente, inclinem sua cabeça para trás dizendo Ahhhh! como a um médico e esperem a comunhão que será solta na goela do fiel sem contato direto com ajuda preciosa da gravidade? Ou isso, ou se suspenda. Mas talvez nosso povo goste de se sentir pseudoprotegido, iludido, como em “True Lies” ou “Missão Impossível”. Mas ao menos esses títulos deixam claro a verdade antes de exibir o conteúdo.

 

A comunhão na boca e na mão se resumem a algo muito mais simples, ao fim das contas: quem está com febre e gripado simplesmente não deveria estar na Missa, mas em casa. Quem sabe assim aquele monte de ministros extraordinários designados para distribuir a Eucaristia não possam encontrar alguma utilidade: levar a esses enfermos a Comunhão? Preferencialmente em suas bocas, procurando lavar as mãos antes e depois.

 

Pax,

 

 

 

Pro Catholica Societate

 

domingo, 28 de junho de 2009

A Solidão do Castelo

Mês passado, o Pastoralis atingiu a marca de quarenta mil visitantes, superando seu recorde anterior, de março. A alegria dessa notícia contrasta com a angustiante ausência de membros ativos de sua Equipe. A cada dia aumenta mais a responsabilidade pela manutenção de uma linha editorial que foi construída ao longo de quatro anos de existência. Ocorre que o crescimento de um portal que se ergue sob as premissas da interação entre membros é, via de regra, inversamente proporcional ao tamanho dos indivíduos; à representatividade de uma só pessoa dentro do todo. Por isso, quando aquele negócio familiar, antes gerenciado por filhos e netos, se torna um empreendimento mais complexo, os proprietários se veem obrigados a contratar outros funcionários. Assim, seria natural que, acompanhando a evolução de um portal católico que vai crescendo, viessem também novos integrantes para sua equipe responsável. Mas infelizmente, no mundo cristão, as coisas não funcionam tão bem assim.

No caso específico do Pastoralis, longe de aumentar, os voluntários comprometidos com as diversas seções do sítio diminuíram drasticamente em relação à base inicial. Pessoas importantes na estrutura do portal simplesmente desapareceram da Internet sem deixar vestígios. Ao longo do tempo, os numerosos membros, a credibilidade e as milhares de visitas que a Paróquia Virtual passou a receber não foram causas suficientes para angariar colaboradores regulares ou mesmo preservar o grupo de trabalho que, anteriormente, havia aceitado o labor. Todo o peso da responsabilidade crescente, antes mais uniformemente dividido, foi lançado sobre os ombros de umas poucas almas, fiéis à causa, deixando-as com pouco espaço para uma respiração mais profunda.

Para alguns, foi inevitável pensar em largar a cruz no chão e retomar a rota de suas vidas privadas, aliviados pelo fardo que não precisariam mais carregar. Talvez alguém tenha tomado essa decisão. Quem vai culpá-los? Houve, porém, quem permanecesse a caminho do Calvário, confiando em Cristo a fim de suprir a fraqueza de suas forças. Deus jamais faltou às súplicas. E aqueles que se mantiveram firmes no propósito viram o Pastoralis se tornar um sítio respeitado e de porte não desprezível no Orbe católico. Mas que continua carente de voluntários idôneos, leais e comprometidos.
  Pro Catholica Societate

PASTORALIS – Uma nova forma de conversar sobre fé!

domingo, 7 de dezembro de 2008

Dezembro - Fim de Ano

Parabéns aos alunos que apresentaram o resultado de atividades desenvolvidas ao longo do bimestre por ocasião das exposições do dia 03/12.
Uma prova cabal do potencial que muitos escondem e alguns não aproveitam.

Mensagem de Natal
Os anos são contados em ordem crescente: do menor para o maior. Cada novo ano representa uma nova oportunidade de crescermos como pessoas; cultivando as virtudes: a amizade, a convivência fraterna em família, a solidariedade com os outros, o respeito...
Para cada ser humano, Deus dá talentos diferenciados e uma opção: cultivá-los ou enterrá-los. A escolha cabe somente a nós e teremos que assumir a responsabilidade pelos caminhos que escolhemos. Quanto mais cedo melhor!

Aos que, com o próprio suor, souberam usar esses momentos de aprendizado para seu próprio crescimento, felicitações pela aprovação e que se sintam incentivados a permanecer na estrada. Aos que, apesar do esforço, ao fim do ano não tiveram forças suficientes para ascender ao nível seguinte, não desanimem; ao contrário, perseverem. A reprovação não representa uma punição, porque não aprender não é crime. Ao contrário, é, antes, um ato de justiça: uma nova oportunidade (reprovar é “provar de novo”) que é dada a alguém que tem o direito de conhecer e que, por razões diversas, ainda não aprendeu. Ela é um ato de amor porque não permite que se lance às feras do mundo, uma pessoa ingênua e despreparada que seria facilmente devorada por uma sociedade competitiva e cruel. A reprovação é a última proteção de um aluno, antes da arena da vida; depois, não há mais volta. Por último, que ninguém enterre seus talentos; isto sim um crime, contra Deus, contra si mesmo, e contra todos que depositam em você as mais autênticas esperanças.
Que assim como Nosso Senhor, possamos renascer fortes e saudáveis e, no ano que está chegando, tenhamos novo alento e força de vontade para cultivarmos os talentos que nos foram dados como presentes.
FELIZ NATAL!

sábado, 13 de setembro de 2008

O Mestre

“Este grande doutor, cujo ensinamento foi tantas vezes elogiado e recomendado por meus predecessores, também intercede hoje e constitui exemplo para todos os membros da escola católica. Na vida e na obra de Santo Tomás encontrareis o modelo tanto do discípulo como do mestre católico”

(João Paulo II).

Pro Catholica Societate

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Rebeldes sem Causa

Alguns diálogos típicos:

- Professor, vai liberar mais cedo.

- Não - responde o docente reiteradamente.
Exemplo 2:

- Professor, não dá aula hoje não!

Exemplo 3:

- Ah! Pra que existe a Matemática?

Exemplo 4:

- Não vou copiar nada!
Esses exemplos ilustram algo muito sério e, porque não dizer, grave: uma ausência de comprometimento que causa espécie.

A normalidade; a freqüência regular com a qual esse tipo de debate ocorre em sala de aula causa perplexidade. Esconde a ausência de perspectivas, uma visão de horizonte enevoada, pequena.

Afinal de contas, para que se vai até a escola?

Parece que nossos alunos a tratam como um fardo pesado, uma espécie de "serviço escolar obrigatório" que todos devem prestar. Difícil achar aqueles que foram instruídos a amar a Sabedoria e a empregar todos os esforços na busca da Verdade.

Em que mundo acordamos?

Um mundo onde se procura a via mais cômoda, a vantagem sobre o próximo. Uma sociedade em que alunos vão se tornando especialistas na tentativa de ludibriar seus professores em avaliações. "Quem não cola não sai da escola, diz o adágio insensato". Espírito nefasto, secular, que vai tornando os homens escravos da própria ignorância. De fato, pra que Matemática?

Meu filho, se acolheres minhas palavras e guardares com carinho meus preceitos, ouvindo com atenção a sabedoria e inclinando teu coração para o entendimento se tu apelares à penetração, se invocares a inteligência, buscando-a como se procura a prata; se a pesquisares como um tesouro, então compreenderás o temor do Senhor, e descobrirás o conhecimento de Deus, porque o Senhor é quem dá a sabedoria, e de sua boca é que procedem a ciência e a prudência. (Pr 2,1-6)

Ciência? Prudência?

Não!

Conveniência! Indecência!

Estas são as escolhas de um século em trevas: "não vou copiar nada", diz o aluno, como se estivesse fazendo um favor ao professor e não a si mesmo. Fala com autoridade, como se seu papel em sala de aula fosse outro que não o de aprendiz, discípulo; como se o prejudicado fosse o mestre. Quem será avaliado? Quem deixará de ter acesso a informações valiosas para seu próprio futuro? Quem prestará o vestibular? Quem está se condenando à ignorância? Quem se identifica com estas palavras?

Os insensatos desprezam a sabedoria e a instrução (Pr 1,7b).

Sim, eles desprezam. E buscam se aproveitar do amor de seus professores (os que se importam). Exploram esse amor e o usam como meio de chantagem; de barganha. Para chamar a atenção. Para se destacar na multidão.

Até quando, insensatos, amareis a tolice, e os tolos odiarão a ciência? (Pr 1,22)

Só Deus sabe.

Liberar mais cedo para que mais rápido se alcance a ignomínia?

Perguntas que demandam respostas; escolhas que se tem que fazer todos os dias; palavras que se tem que dizer repetidamente. O mundo incentiva a perdição e os maus aparentemente triunfam sobre os poucos exilados. Porque "os filhos deste século são mais astutos em seus negócios que os filhos da luz" (cf. Lc 16,8). O destino dos que escolhem as estradas mais longas é o sofrimento.

Dizia Frei Maurício Viann, ilustre cidadão japeriense:

"Os caminhos da vida são variados, mas os que levam para o céu passam pelo calvário".

Como é difícil ensinar isso. Quanta mortificação é necessária para vencer a tentação da conveniência, da porta larga, do caminho mais fácil, da "cola", do estelionato, da falsidade ideológica. Como é fácil não se aborrecer! Como é fácil não me aborrecer? Por que não lançar dez para todos e me isentar da fadiga do labor? Quem reclamaria? Apenas os que amam a sabedoria!

Quanta liberdade! Quanta deslealdade!

Alunos que se ofendem mutuamente. Não conseguem dialogar sem agressões. E quando as palavras não bastam, braços e pés são trocados.

...Idolatria, superstição, inimizades, brigas, ciúmes, ódio, ambição, discórdias, partidos, invejas, bebedeiras, orgias e outras coisas semelhantes. Dessas coisas vos previno, como já vos preveni: os que as praticarem não herdarão o Reino de Deus! Ao contrário, o fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, brandura, temperança. Contra estas coisas não há lei. (Gl 5,20-23)

Mas há aqueles que escolheram a boa parte, e esta não lhes será tirada (cf. Lc 10,42).

Aferra-te à instrução, não a soltes, guarda-a, porque ela é tua vida. (Pr 4,13)

Manifestação de valor do Magistério:

O culto dos valores morais e espirituais (cf. art 4, I, do Estatuto do Magistério Público do Estado do Rio de Janeiro)

Os que escolhem a melhor fatia, são alunos humildes, submissos e que amam a sabedoria. Pois o "temor a Deus é o princípio da sabedoria" (cf. Pr 1,7).

Cada qual seja submisso às autoridades constituídas, porque não há autoridade que não venha de Deus; as que existem foram instituídas por Deus. Assim, aquele que resiste à autoridade, opõe-se à ordem estabelecida por Deus; e os que a ela se opõem, atraem sobre si a condenação. (Rm 13, 3-5)

Assim:

Ouvi, filhos meus, a instrução de um pai; sede atentos, para adquirir a inteligência. (Pr 4,1)

Da mesma maneira, convém escutar aqueles que são mestres e tem o Bem como fim último, porque isso é bom e satisfaz à Justiça.

Em verdade, as autoridades inspiram temor, não porém a quem pratica o bem, e sim a quem faz o mal! Queres não ter o que temer a autoridade? Faze o bem e terás o seu louvor. Porque ela é instrumento de Deus para teu bem. Mas, se fizeres o mal, teme, porque não é sem razão que leva a espada: é ministro de Deus, para fazer justiça e para exercer a ira contra aquele que pratica o mal. Portanto, é necessário submeter-se, não somente por temor do castigo, mas também por dever de consciência. (Rm 13,3ss)

Estas palavras se dirigem aos que escolheram a melhor fatia, a via estreita, o caminho do sofrimento e da coragem; aos que optaram por alegrias que duram porque derivam do infinito e da eternidade.

Ao contrário, serão vãs àqueles que preferem satisfações passageiras, seculares, que desperdiçam seu tempo e enterram seus talentos.
Por que gastar dinheiro com outra coisa que não o pão, desperdiçar o salário senão com satisfação completa? (Is 55,2)
Elas se destinam àqueles que amam a Sabedoria e a instrução, que são humildes, fraternos e submissos; que respeitam seus colegas de classe e tratam seus pais e mestres com educação.

O néscio desdenha a instrução de seu pai, mas o que atende à repreensão torna-se sábio. (Pr 15,5)
O caminho da Verdade não é tolerante com a torpeza. Resta a esperança de que a voz da Sabedoria possa ecoar fundo nos corações. Ainda há tempo de navegar por águas mais calmas, serenas, tranqüilas e cristalinas; de andar nos jardins mais perfumados, por onde passam as trilhas mais retas e onde está o solo mais firme.
Quem tiver ouvidos, ouça! (Ap 13,9)

Quem tiver olhos, leia!